terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um pouco de história... (1)

Era o ano de 1977, eu fazia o 5’ano da Faculdade de Medicina, a Ditadura já começara a dar sinais de vergonha e misturávamos, em Valença-RJ, a militância estudantil mais organizada, marxista (modo brasileiro: sem ler O Capital) com Aldous Huxley, umas pitadas de literatura "beat" (contrabandeados Ginsberg e Corso) que viria a estourar, com Kerouac, no início dos 80 por aqui. Um tempero existencialista tardio, na esteira de Sartre e Bouvoir. Muito Chico, Milton, Gil e Caetano, algum Tom, muita injustiça com o jazz de Bill Evans e Miles Davis, considerados por alguns ingênuos como música de elevador. Guimarães Rosa, Garcia Márquez e Graciliano Ramos à frente, Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Clarice Lispector escondidos das "patrulhas" enfim, uma desorganizada pasta cultural e um bando de gente aos 21, 22 anos. Freud só conhecíamos de piadas. Jung, conheciam-no os místicos. Reich quem? o III’?
A Medicina era muita modernidade diagnóstica, muitas síndromes descobertas, esperanças de fazermos belíssimos dignósticos mas, êpa, calma lá, isso tudo era para que mesmo? E aquelas caixas enormes de um tomógrafo, estacionadas no corredor do prédio principal da Escola, jamais abertas enquanto tivemos um Diretor- General e Psiquiatra? A boca quase pequena corria que o motivo seria a doação do aparelho feita pela Hungria, país comunista na época, que a Medicina da UFRJ teria dispensado, pela tal motivação ideológica, e foi parar em Valença. Formei-me em 1978 e as caixas lá continuaram, cenográficas feito Teatro de Vanguarda: a qualquer momento uma atriz sairia a pular do alto de uma delas num traje clown a recitar o Manifesto Comunista. Na contracena um filósofo esfarrapado e bêbado gritaria, Zaratrusta suposto:_ "Devo ir ao fundo da dor mais do que nunca, até as suas mais negras profundidades, assim o quer o meu destino. Eia ! Estou pronto !
Neste caldo de uma contracultura tardia, pois tudo foi tardio para nossa geração, dois livros importantes chegaram-me às mãos, simplórios, delirantes, e para piorar, vieram lá do "Império do Mal", da "Big Apple" decadente: Sugar Blues, de William Duffy e Do Jardim do Éden à Era de Aquarius, de Greg Brodsky. Pronto falei. Ali estavam algumas respostas para algumas perguntas que afligiam a todos os estudantes de Medicina, não deslumbrados com a técnica pura e simples: "O que fazer com o paciente? Como tratá-lo e curá-lo? O que é cura? Quem adoece e como se dá o adoecimento?